Se o leitor se interessar em melhor compreender toda a gama e direção/tendência da informação sobre a Ucrania, pesquize a palavra inglesa "to gaslight". Exatamente o que a Europa faz para conosco através da sua imprensa. Caracterizar o conflito de maneira a diabolizar um lado. E santificar o outro.
Decidimos dedicar este artigo ao publico moçambicano, numa altura em que o Presidente Trump dos EUA reapareceu na cena política internacional. Uma altura em que precisamos saber discernir e desintoxicar os discursos públicos, separar a verdade da propaganda, para ver o que realmente se esconde por detrás das fumaças dos discursos moralizantes de várias fontes.
Muito poucos estavam à espera de um Presidente americano que está mais interessado no negócio para o seu país do que na guerra. Mais interessado no negócio do que na benfeitoria. Claro que esta nova situação exige boa navegação porque traz ao mesmo tempo benefícios e perigos. Já não podemos por exemplo contar com a USAID como contávamos até aqui, ao ponto de preterirmos as nossas responsabilidades soberanas de saúde para o povo, para estas ONGs. É uma lição forte. Aprendamos, paremos e discutamos: e se…?
A guerra na Ucrânia é-nos apresentada como um acontecimento que começou há três anos, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Não é verdade: é preciso acompanhar o desenrolar de todo o filme a partir do princípio para compreender como se chegou a esta invasão e a posição hoje dos protagonistas. E quem são os protagonistas, que provocaram a fuga de milhões de Ucranianos que deixaram o país e se refugiaram pela Europa fora.
Sem regressar para muito longe na história europeia extremamente complexa, podemos regressar ao fim da URSS que aconteceu muito recentemente: esse desmoronamento foi negociado diretamente com o Presidente Gorbachov. E todos os acontecimentos depois disso, como o bombardeamento de Kosovo, o desmembramento da Jugoslávia. Os dois Acordos de Minsk e ao papel da França e da Alemanha nesses acordos, os Acordos de Istanbul que foram sabotados por um senhor Boris Johnson, a mando dos EUA.
Nos interstícios destes acontecimentos todos se encontra a explicação da guerra na Ucrânia hoje.
Neste mexer todo, torna-se importantíssimo ressaltar a iniciativa diplomática Africana, antes de e para chegarmos ao argumento central deste artigo.
Com efeito, em Junho de 2023, uma forte e alta delegação presidencial Africana representada por sete países: África do Sul, Egipto, Zâmbia, Comores, Uganda, Senegal, Congo-Brazza visitou a Ucrânia (Kiev) e a Rússia (Moscovo), tendo sido recebida pelos respectivos Presidentes. As duas mensagens que a África levava: A Africa pode e pretende jogar um papel diplomático mais vigoroso na arena internacional. A África sofre porque o pão passou a ser raro e caro desde o começo do conflito.
As Nações Unidas viram-se obrigadas também a jogar um papel de intermediário para a continuação do fornecimento do trigo dos países em conflito ao mundo. Acto continuo, a máquina mediática dominante, Europeia e Americana, falou de um acordo para permitir que o trigo chegasse aos países Africanos sempre famintos. Uma representação falsa, racista, hipócrita e pobre, porque até o Secretario Geral das Nações Unidas[1] reconheceu que o arranjo negociado pelas Nações Unidas para a livre circulação do trigo apenas beneficiou a África em 14%, enquanto a Europa recebeu a maior parte dos carregamentos de trigo provenientes da Ucrânia, apesar do trabalho diplomático feito pela África.
Evidentemente esta é uma guerra pela expansão militar da NATO, organização bélica cuja existência se justifica por uma missão de segurança continental. Não vem aqui a propósito analisar a natureza da NATO, que seria todo um tratado, dadas as experiências negativas no Continente Africano. Vamos igualmente nos abstrair das justificações e dos eventos históricos que levaram a esta guerra na Ucrânia, para nos concentrarmos no que significa a Ucrânia para a Europa, para o mundo.
O que queremos afirmar é que a justificação europeia sobre esta guerra de que esta seja uma luta pela democracia é uma mentira (it is a gaslighting). As eleições e os partidos políticos na Ucrânia foram suspensos indefinidamente. Dizer que esta seja uma guerra para evitar que a Rússia invada toda a Europa é um discurso para amedrontar e para diabolizar a Rússia, um país igualmente Europeu e sem o qual A Europa teria perdido as duas grandes guerras tribais europeias chamadas grandes guerras mundiais.
A realidade é que controlar a Ucrânia seria equivalente (quase) a controlar a RDC. Quem controla a Ucrânia, controla os imensos recursos nele contidos e que são raros na Europa:
Depois da Noruega, primeiro produtor Europeu de gás, está a Ucrânia com depósitos de cerca de 1.1 triliões de metros cúbicos.
A Ucrânia é o único país Europeu com reservas de lítio e urânio.
A Ucrânia tem também reservas de carvão e de ferro.
Muito mais do que isso, a Ucrânia produz e comercializa
12% do trigo mundial
16% do milho mundial
50% do óleo vegetal (girassol) do mundo.
Na realidade, dos 40 milhões de hectares de terras produtivas da Ucrânia, 17 milhões (42.5%) pertencem a três empresas americanas enquadradas por Blackrock[2].
Para os Europeus, a guerra da Ucrânia é um conflito pelo domínio e monopólio da exploração dos recursos naturais daquele país. E usa-se a NATO para evitar que estes recursos caiam nas mãos da Rússia. Entrementes, a indústria militar está fazendo uma montanha de dinheiro. Nesta altura, os Estados Unidos, que foram fomentando situações que levaram a esta guerra, fizeram uma reviravolta e estão promovendo um fim rápido da guerra. Esta posição de um país que até agora confortava a propaganda anti-Rússia do Ocidente e da Europa e garantia a segurança da Europa, deixou a Europa confusa e se recusando ao fim da guerra. A natureza belicista e violenta de uma Europa que se apresenta como o modelo de democracia e de postura moral está desmascarada!
Talvez o comediante/Presidente Zelensky não se apercebeu de que é apenas um ator neste teatro. A proposta de paz dos Estados Unidos, pela primeira vez, apanhou a Europa num pé falso e de surpresa.
Conclusões
A Europa não tem a posição de servir de referência, nem moral, nem política, nem sequer militar. A guerra é uma armadilha na qual uma vez engajada, passa a ser difícil de se sair, uma vez que certas forcas nacionais encontram negócio em conluio com forças regionais estrangeiras que passam a estar interessadas na sua prolongação.
É necessário profissionalizar e aprofundar a diplomacia preventiva e negocial, fundamental para a gestão das relações entre estados. Se alguém tinha necessidade de prova, teria assistido a visita de Zelensky à Casa Branca dos Estados Unidos.
Entre estados não existem amigos permanentes, apenas interesses nacionais permanentes. Cabe a cada estado o direito e o dever de definir, executar e defender esses interesses. E o dever de sanear as relações que escolhemos ou que nos foram impostas.
A Ucrânia e um exemplo de soberania nacional em jogo entre os EUA, a Rússia e o resto da Europa. Uma Europa que se recusa a considerar a Rússia como parte integrante dessa Europa. Não existe nem rio, nem montanha nem oceano que divida a Rússia do resto da Europa. O resto é teimosia e cegueira.
É esta Europa que se nos apresenta como observadora de eleições no Continente Africano! Com que direito, explicação, qualificação ou justificação? Complexo de superioridade racista sem base. Ou será a nossa mentalidade que ainda sofre de inferioridade!
Canhandula
Tete, Março de 2025
[1] Uma personalidade com quem trabalhei e que representei no Quénia, Serra Leoa e Níger, quando ele era o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

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